O bilhete premiado

bilhete premiado

Juca, um menino de doze anos, toda vez que se aproximava o natal, ele sonhava com uma noite especial. Sonhava com uma mesa farta, com um enorme peru, com os mais deliciosos doces e o seu presente. Afinal comportara-se o ano inteiro, tirara boas notas, era um bom filho, um bom aluno. Costumava brincar muito e aprontava das suas, como todo garoto de sua idade, mas nada de exageros ou trelas perigosas. Mas neste ano, o seu pai estava desempregado, e Juca temia que não tivesse um natal como sonhava. Um dia passeando pela rua, brincando de esconde- esconde com seus amigos, ele encontra um papel no chão, curioso como sempre, pega o papel do chão e para a sua surpresa era um bilhete premiado, com uma quantia em dinheiro que ele nem sonhava em ganhar um dia. Juca teve um acesso de euforia, felicidade e dúvidas, sorria e chorava ao mesmo tempo. Seus amigos perguntaram o que ele tinha, mas ele não disse nada e imediatamente correu para casa, trancou-se no seu quarto e começou a pensar no que faria com esse prêmio.

– Meus pais pagarão suas dívidas, eu vou comprar uma bicicleta, um vídeo game Xbox 360, última geração, um notebook, um celular com câmera digital 9mega pixel, um ipod nova geração.
– ai meu Deus que felicidade! Vou mandar Mainha comprar um pernil tamanho família, uma árvore gigante, vou ter rabanada, torta de chocolate, musse, brigadeiro, muito refrigerante, sangria, tudo o que eu tenho direito e vou chamar todo mundo da rua pra fazer uma super festa.
– Quando os meus pais chegarem vou contar a eles a novidade, eles vão ficar super contentes, mas vou esperar a hora do jantar que é mais emocionante.
Assistindo o jornal com os seus pais, Juca vê no noticiário que uma senhora de 70 anos havia perdido o seu bilhete premiado e estava desesperada procurando. Neste instante toda a felicidade e planos de Juca se desfazem. Ele corre para o seu quarto e começa a chorar.
– Mas e agora? Achado não é roubado. Eu achei, eu estou precisando, não é justo comigo, eu pedi tanto meu Deus uma ajuda e quando ela vem me é tirada na mesma hora? Por quê? Por quê? Alegria de pobre dura pouco mesmo. Mas ninguém sabe que eu achei. Essa senhora não pode provar que esse bilhete é o dela. Mas não é certo eu ficar com o que não é meu.
Nesse instante sua mãe entra no quarto e lhe pergunta o que aconteceu. – Que foi meu filho, por que você está tão triste, o que foi que aconteceu?
– Nada mãe, nada não. Eu só quero ficar um pouco sozinho.
– Tudo bem filho, se você não quiser conversar, eu respeito a sua vontade, mas saiba que eu estou aqui, se você precisar de mim é só chamar.
– Mãe, achado não é roubado, não é?
– Juquinha, se a pessoa sabe quem é o dono, é sim. Você achou alguma coisa?
– Não, mãe é só dúvida mesmo.
– Certo filho, mas não fique com o que não lhe pertence, não é honesto.
Nessa noite, Juca não conseguiu dormir direito, sonhou com a senhora precisando do dinheiro, sonhou que ela descobria que ele tinha ficado com seu bilhete e o perseguia. No dia seguinte ele vai à escola, fazer os exames finais e no meio do recreio os amigos conversam sobre o caso da velhinha.
– Vocês viram a velhinha que perdeu o bilhete premiado? (diz amigo um)
– Vi sim. Eu nem quero pensar se fosse comigo. (diz amigo dois)
– Se eu achasse esse dinheiro eu não devolvia quem mandou perder? (diz amigo três)
– Eu devolveria sim, ela não teve culpa. Às vezes a gente perde coisas mesmo. (diz amigo quatro).
– E se você perdesse, não iria querer que te devolvessem? (Falou amigo cinco para o amigo três)
– Ah, aí é diferente. (amigo três)
– Diferente por quê? (amigo cinco)
– Porque é meu, hora bolas. (amigo três)
– Como o bilhete é da velhinha. (Amigo dois)
– E você Juquinha o que faria? (amigo um)
Juquinha não responde nada, fica em silêncio pensando no bilhete, na senhora e nas palavras dos amigos.
– Juquinha? Juquinha? Cadê você? (amigo quatro)
– Alô, chamada da terra para a lua. (amigo dois)
– Juquinha, Juquinha? (amigo um)
– Aí o que é minha gente?
– Aonde você estava? (amigo dois)
– Aqui, né? Eu iria está aonde, em Marte?
– Ou em Plutão (amigo três)
– Mas o que foi?
– O que você faria se você tivesse achado esse bilhete premiado? (amigo quatro)
-Ai minha gente, sei lá de bilhete, eu não sei de nada.
Juca sai apressadamente e vai para casa. – E agora meu Deus o que é que eu faço?
O menino pensa muito e resolve contar tudo pra sua mãe.
– Mãe não tem aquele bilhete que passou no jornal ontem a noite?
– Tem sim meu filho, por quê?
– Eu achei mãe.
– Filho e o que você fez, já devolveu para a dona?
– Não mãe, achado não é roubado.
– Quando se conhece o dono, é sim menino.
– Mas eu não conheço ela mãe.
– Filho, você não é amigo dela, mas você viu que ela é a dona e não é certo ficar com esse bilhete.
– Mas mãe, a gente está precisando muito desse dinheiro.
– Mesmo assim, esse dinheiro não é nosso.
– Quem mandou ela perder. Se fosse eu, teria o maior cuidado.
– Filho ela não tem culpa de ter perdido, e mesmo que tivesse, ainda assim esse dinheiro não é nosso. Vamos lá agora mesmo devolver esse bilhete. E não adianta fazer cara feia.
– Não é cara feia, mãe, eu só estou triste.
– Pois não devia, devemos ficar felizes quando ajudamos alguém. Você vai fazer essa senhora feliz e isso é motivo para se alegrar.
– Adeus ipod, adeus vídeo game, adeus musse de chocolate…
– Que isso menino?
– Estou dando adeus aos meus sonhos.
– Menino não faça isso, quem mandou fazer planos com o que não era seu? Vamos lá agora, já chega de conversa.
Mãe e filho saem e vão à procura da senhora. Acham o seu endereço e batem a sua porta. A casa da senhora, não é uma casa simples como eles pensavam.
– Mas mãe, essa mulher já tem dinheiro, está vendo a casa dela? Vamos embora, esse dinheiro não fará falta a ela. Juquinha fica aqui agora mesmo.
A senhora abre a porta e vê mãe e filho em sua porta.
– Pois não, em que posso ajudá-los.
– Senhora, o meu filho tem uma coisa que lhe pertence.
– O que seria? Por favor, entrem.
Mãe e filho entram na casa da senhora, sentam-se no sofá em silêncio. A senhora fica esperando curiosa o que o menino teria para lhe entregar. A sala permanece em silêncio por mais um tempo. A senhora pergunta se as visitas não queriam beber alguma coisa e eles respondem que não. A senhora mais uma vez quebra o silêncio.
– Menino eu estou curiosa, o que seria que você tem para me entregar?
Juquinha permanece em silêncio, sua mãe fica impaciente e lhe da um beliscão.
– Vai menino desembucha.
– Adeus Xbox 360, adeus celular, peru…
– Vai menino (outro beliscão)
– Aí mãe. Senhora…
– Juju.
– Dona Juju…
– Não, pode me chamar só de Juju.
– Eu, eu, eu achei o seu bilhete, está aqui ó.
A Senhora fica boquiaberta e surpresa e do susto senta-se de vez na cadeira um pouco ofegante. Mãe e filho aproximam-se da senhora e começam a abaná-la.
– Senhora, senhora, ai meu Deus matei a veia.
– Isso são modos de falar Juquinha.
– Calma gente já estou bem. Juquinha, isso que você fez é muito bonito.
– O que foi que eu fiz?
– Essa atitude de devolver o meu bilhete eu nunca vou esquecer.
– Nem eu.
– Qual é o seu maior sonho Juquinha?
– Meu sonho? É fazer uma big festa de natal, comprar uma bicicleta 24 marchas…
A sua mãe lhe dá uma cotovelada.
– Deixa de ser interesseiro menino, não foi desse jeito que eu lhe criei.
A senhora sorri e fala para a mãe de Juca:
– Não se preocupe minha filha, a atitude do seu filho foi muito bonita e merece ser recompensada.
Algumas semanas se passam e chega o natal. Juquinha está super ansioso. Afinal chegou o natal, a sua festa preferida. O seu pai conseguiu arranjar um emprego. A senhora por gratidão empregou o pai de Juca em uma de suas lojas. A noite uma super festa foi armada na Rua de Juquinha, a senhora organizou a festa dos sonhos do menino, com tudo o que ele havia pedido. Disse também que lhe ajudaria nos estudos e sempre estaria por perto. Que ele havia ganhado uma amiga e, vários presentes também.
Todos os amigos de Juquinha compareceram, estavam todos de férias confabulando o que iriam fazer durante o verão. Brincaram a noite inteira, comeram bastante doces e confraternizaram. Era natal, eram férias. Estavam todos felizes, passaram de ano, ganharam presentes e agora era só festa.
Adriana Freitas
A reprodução do texto está autorizada desde que a fonte/autoria seja citada.

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