Sentimento Primitivo

sentimento primitivo

Hoje de manhã eu experimentei os meus sentimentos mais primitivos, aqueles que pensei não possuir. Hoje, como sol estava frio, resolvi fazer minha caminhada habitual. Saindo da minha rua fui surpreendida por uma buzina. Assustei-me e dei um pulo pro lado. Quando observo a motorista do carro tendo uma crise de riso as minhas custas. Além de participar de uma festa que vai contra as leis da natureza – uma rave no Pontal de Maracaipe, onde há desova de tartarugas e um estuário – a mulher vem a minha praia rir da minha cara. Senti uma raiva, que a muito ou nunca havia sentido. Imaginei diversas formas de vingança, outro sentimento que sou totalmente contra. Quis desejar que seu carro atolasse na areia fofa, quis jogar uma pedra no seu carro. Sonhei na hora ser um policial e dá-la voz de prisão, principalmente se estivesse bêbada, apreenderia seu carro e a faria pagar a multa e quem sabe até fazer perder sua carteira de habilitação.  Até vontade de mostrar os dois dedos do meio e mandá-la tomar naquele canto e chamá-la não de santa, mas da outra, eu quis. Continuei andando e hora lutando para não sentir o que estava sentido, hora imaginando mais formas de fazer ela se arrepender de ter sido engraçadinha comigo. Apesar de não lembrar o seu rosto, a cena não sai da minha cabeça. Afinal a buzina foi completamente desnecessária, já que após a minha recuada, ela demorou a passar com o carro. Tinha dado tempo, eu ter decorado a placa do carro e assim fazer uma busca no site do DETRAN, tê-la dado um bom soco em sua cara, arranhado o seu carro com a unha, tamanha a minha raiva.  Mas não, continuei andando, porque se fizesse qualquer coisa que desejara estaria indo contra a toda a educação que recebi durante a minha vida.  Percebi que como todo ser humano, eu não estou livre de sentimentos brutos, que não ajudam em nada, só atrapalham a nossa vida, fazendo-nos parecermos homens primatas. No final das contas, senti vergonha de mim mesmo por ter alimentado por tanto tempo um sentimento que só a mim iria fazer mal. Lembrei do velho ditado “Deus não dá asas a cobra e se conhece uma pessoa quando se dá poder a ela”.  A criatura quando a graça passar vai dormir provavelmente acordar de ressaca e eu não posso perder o meu tempo com pensamentos pequenos apenas por uma buzinada, quem sabe, hoje eu fiz alguém feliz. Isso é motivo de alegria e não de rancor.
Adriana Freitas
A reprodução do texto está autorizada desde que a fonte/autoria seja citada.

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